A Homeopatia como tratamento as vítimas de abuso sexual

A Homeopatia como tratamento as vítimas de abuso sexual

by fb fevereiro 07, 2019

A homeopatia como tratamentos as vítimas de abuso sexual

1. Andréia Luciane Sol Souza

2. Flavia Silva Barits

  1.  Historiadora, Educadora Popular Mestre em Educação FAE/UFMG, Homeopata Popular pela UFV-MG/2018.
  2. Fisioterapeuta, Acupunturista, Homeopata Popular, Instrutora do Curso de Homeopatia Popular da UFV-MG/2010, Diretora do Instituto Flávia Barits de Homeopatia e Terapias Naturais.

 

INTRODUÇÃO

Como o uso da homeopatia pode contribuir para o restabelecimento físico, emocional, mental e energético das mulheres que foram vítimas de abuso sexual?

Os princípios da homeopatia nos orienta a estudar o doente e não a doença o que nos convida a analisar o paciente de uma forma holística buscado compreender o todo, de forma integral. De acordo com a necessidade de cada indivíduo os medicamentos homeopáticos agem nas pessoas, mediante os sintomas apresentados, podendo atingir os níveis físico, emocional, mental e/ou energético. Essa análise holística do indivíduo, permite ao terapeuta homeopata compreender a melhor forma de se conhecer e interferir nos níveis mais sutis das vítimas de violência sexual, contribuindo para seu reestabelecimento.

Até os dias atuais, são ínfimas as referências acerca do tema “Homeopatia e Violência Sexual”, o que demonstra a necessidade de pesquisas e estudos sobre este campo ainda tão pouco estudado, todavia, tão necessário para o reestabelecimento de inúmeras vítimas, conforme os dados a seguir.

De acordo com as compilações de SOUZA (2018), os dados da violência sexual no Brasil são estarrecedores, segundo informações do 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), estima-se que o Brasil registrou em 2015, um estupro a cada 11 minutos, ou cinco pessoas por hora. Apesar desses dados, acredita-se que o número pode ser muito maior e que são omitidos para a Polícia. O National Crime Victimization Survey (NCVS), apontam que apenas 35% das vítimas de estupro costumam prestar queixas.

 

A QUESTÃO DO ABUSO SEXUAL NO BRASIL E NO MUNDO

O estudo Estupro no Brasil – uma radiografia segundo os dados da Saúde, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) -, aponta que, o estupro não é um problema de cor, de escolaridade ou de classe social. Os dados apontam, que não há um grupo de mulheres protegido da violência sexual, todas correm riscos. E, some a elas, os meninos de até 13 anos, que também sofrem com estupros.

O referido estudo aponta ainda que, no País, apenas 10% dos casos de estupro chegam ao conhecimento da Polícia. Cerca de 70% das vítimas são crianças e adolescentes e quem mais comete os crimes são pessoas próximas das vítimas, por esse motivo há o temor em se reportar a polícia e sofrer represálias. O que ocorre é uma inversão de responsabilidade, onde as mulheres apesar de serem vítimas acabam sendo vistas como culpadas pelo ocorrido e acabam omitindo o fato.

O Instituto Locomotiva, intitulada, Percepções e comportamentos sobre violência sexual no Brasil, 2016, aferiu que 2% dos homens admitem espontaneamente já ter cometido violência sexual contra mulheres e 18% admitem já terem sido violentos.

Em 2016, uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública  mostrou que mais de um terço de brasileiros acredita que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas” o que mostra mais uma vez como a sociedade culpabiliza as mulheres pelo fato de terem sido estupradas. No entanto, na tentativa de desvelar a realidade sobre este fato, em 2017, foi realizada uma exposição em Bruxelas na Bélgica, com o intuito de contradizer esse pensamento. A mostra trazia trajes que mulheres e meninas estavam usando no momento em que sofreram a violência sexual, eram trajes extremamente comuns que não insinuavam “intenções”, como aqueles que defendem relatam.

Estes dados apenas traduzem uma realidade negligenciada e contribui para analisarmos o contexto da vítima que, entre os inúmeros sofrimentos causados pela situação do abuso, ainda tem que lidar com o sentimento de que foram culpadas pelo ocorrido. Muitas mulheres passam a vida se questionando se poderiam ter feito alguma coisa para evitar aquela situação, o que piora ainda mais a sua situação de vulnerabilidade física e emocional.

Nossa sociedade não estimula as vítimas a denunciarem ou a falarem abertamente sobre o que passaram, causando um silenciamento que corrobora ainda mais o sofrimento da vítima. Apesar de sabermos dos dados arrebatadores relativos ao crime do estupro, muitas vezes somos incapazes de enxergar que convivemos diariamente com mulheres que sofrem abuso sexual e que carregam ao longo da vida, em silêncio, as dores físicas e emocionais resultantes deste processo em que são subjugadas e violentadas, tendo o seu feminino devastado.

Apesar desse contexto, algumas vítimas buscam tomar iniciativas de se reestabelecerem e se reequilibrarem mental, emocionalmente e até mesmo fisicamente, criando grupos de apoio às próprias vítimas, buscando auxilio terapêutico e psicológico; muitas vezes, anos após o acontecido e um longo período de sofrimento. Além disso, em muitos casos, as vítimas não procuram a terapia por esse motivo, mas sim pelo sintomas que esse trauma as causou, conforme veremos a seguir.

Pelo fato de se culparem, buscam ajuda tardiamente, por não suportar mais os danos que esse trauma causou em sua vida e daqueles que convivem com ela. Via de regra, somente os terapeutas ficam cientes do ocorrido, mais uma vez devido à auto culpabilização e ao receio de represálias. Além de ouvidos estendidos e empáticos para receber a vítima do abuso sexual, o terapeuta homeopata deve indicar à vítima os medicamentos adequados para tal situação, mediante os diversos sintomas físicos, mentais, emocionais e energéticos que esta apresenta. Lembrando que em muitos casos, a vítima procura a terapia muitos anos após o ocorrido, chegando ao consultório com o trauma arraigado em seu Ser.

 

 MEDICAMENTOS HOMEOPÁTICOS INDICADOS E OS SINTOMAS MAIS COMUNS APRESENTADOS PELAS VÍTIMAS

A violência sexual sofrida por mulheres pode se manifestar em diversos sintomas e com diferentes graus de intensidade, como mostra estudo realizado em 2014, intitulado, “Ação Homeopática na resposta a violência sexual contra a mulher” (Carvalho; Madeira, 2014).  “O impacto da violência sexual na saúde física e mental nas mulheres varia de inflamações pélvicas, gravidez indesejada, doenças de transmissão sexual, abuso de álcool e drogas, síndrome do intestino irritável, depressão, ansiedade, disfunções sexuais, distúrbios alimentares, tentativas de suicídio”.

Neste estudo, são realizados três estudos de caso, os quais explicitam como o uso dos medicamentos homeopáticos influenciaram positivamente nas pacientes. No primeiro caso, a paciente apresentava síndrome do intestino irritável e passou por tratamento com o endocrinologista sem obter bons resultados, foi indicado a ela o uso do Staphisagria e as autoras /terapeutas registraram um excelente resultado no caso clínico.

No segundo caso, a vítima sofreu o abuso aos 23 anos e aos 31 anos ainda não tinha conseguido superar o ocorrido, isolando-se dos amigos e da família, engordou 50 quilos e tinha a sensação de estar “suja”. De acordo com as autoras ela fez uso inicialmente do Staphisagria e do Lilium tigrium, e posteriormente do Ignatia Amara e Natrum muriaticum, após a tratamento as autoras informaram que a paciente teve boa resposta conseguindo emagrecer 3 quilos e diminuir a ansiedade, porém continuou conservando a mágoa e a dificuldade de esquecer o acontecimento. No terceiro caso analisado, uma paciente de 59 anos sofreu abuso sexual na infância dos 5 aos 6 anos. Após a morte do marido (4 meses antes do início do tratamento) a paciente não conseguia dormir sozinha. Neste caso foi prescrito Staphisagria, Natrum muriaticum, Arnica Montana e Pulsatilla. As autoras do estudo relatam que no decorrer do tratamento foi observado uma melhora em relação a tristeza e depressão e que a paciente estava dormindo melhor.

Nota-se, sem a intenção de detalhar as opções realizadas pelas autoras, que o uso da homeopatia interferiu positivamente nos três casos apresentados pelo estudo, contribuindo para amenizar o seus sofrimentos e “limpando” os obstáculos que podem levar a cura.

Dessa forma, não há como prever de que forma este trauma irá se manifestar, pois cada pessoa responderá de forma diferente ao ocorrido daí a importância do acompanhamento que busca compreender o todo levando em consideração o histórico de vida de cada uma das vítimas. A ideia expressa anteriormente vai de acordo com o que nos apresenta Vithoulkas (1980):

“O ser humano vive desde o momento do seu nascimento num meio ambiente

dinâmico, que afeta seu organismo durante toda a vida e de várias maneiras,

e que o briga a se ajustar continuamente, de modo a manter um equilíbrio

dinâmico.” Vithoulkas (1980).

Outro estudo de caso mais recente, realizado pela autora deste compilado SOUZA (2018), corrobora os efeitos da homeopatia na vida de outra vítima.

 

ESTUDO DE CASO:

Uma mulher de 35 anos, relata que sofreu abuso durante três anos consecutivos, dos seis aos nove anos de idade, por um amigo da família. Na primeira consulta, a queixa principal da vítima foram sintomas de ansiedade e crises de pânico.  Durante a avaliação ela relatou a história do abuso e os demais sintomas que sentia, como a insônia, ansiedade, medo, desânimo, depressão, dores de cabeça, dores no período menstrual, aversão ao toque, falta de libido e muito medo da morte. Devido ao medo da morte, não conseguia dormir bem à noite, então fazia uso de calmante para conseguir dormir. Além disso, havia tentado contra a própria vida, por três vezes. A mulher relatava se sentir muito mal e sozinha, além de não conseguir dar afeto aos seus filhos de 6 e 7 anos. Relatou aversão ao toque e ao sexo. Sempre buscou ficar só e no escuro. No entanto, somente após as crises de ansiedade que buscou ajuda, por não suportar mais sofrer.

De acordo com Vithoulkas (1980) o ser humano deve ser compreendido como um todo integrado que, “age todo o tempo através de três níveis diferentes: o mental, o emocional e o físico, sendo o nível mental o mais importante e o físico o menos importante”.  O tempo todo o organismo humano trabalha em sua totalidade, seja com suas funções normais ou defendendo dos estímulos mórbidos. Os sintomas mórbidos podem ser em um ou mais níveis que compõem a nossa existência e podem mudar de um ou de outro nível dependendo do estímulo que recebe.

Após essa primeira avaliação foi realizada as indicações homeopáticas mais

adequados para a paciente. Foi adotado  o método TRI UNA (prática homeopática da Universidade Federal de Viçosa – UFV), que consiste na indicação de três possibilidades de tratamentos, concomitantes, sendo eles:

1) Medicamento simillimun, constitucional ou miasmático – Que cobre o maior número de sintomas apresentados pela paciente e que tem a ver com sua personalidade / constituição.

2) Medicamento de fase aguda – Atuará sobre a situação aguda, emergencial.

3) Coadjuvantes – drenadores homeopáticos, sais de Schusler, organoterápicos, isoterápicos, nosódios, florais, fitoterápicos, chás, etc.

Foi indicado o medicamento Staphisagria, para a fase aguda o Aconitum Napellus e como coadjuvante foi indicado o floral Rescue que é o floral do resgate, do socorro, como já sugere o nome e ajuda nos casos de mal estar.

Além do tratamento homeopático, ela estava participando de encontros terapêuticos realizadas pelo grupo de apoio à vítimas de abuso sexual da sua cidade.

No primeiro momento do tratamento, o medicamento Aconitum Napellus, foi suspenso devido a exoneração[1] mental que estava causando desconforto à paciente. Dessa forma, prosseguiu com o tratamento utilizado o medicamento Staphisagria, seguido dos coadjuvantes, Floral Rescue e Terapia Reiki, além acompanhamento no Grupo de Apoio à Vítimas.

A partir do acompanhamento e registros da terapeuta foi possível observar que, a paciente apresentou diferentes sintomas em todos os níveis energéticos, sendo identificada a seguinte situação:

a) nível físico: dores de cabeça, labirintite, dores no período da menstruação.

b) nível emocional: tristeza, insônia, irritação, aversão ao toque, depressão, estresse.

c) nível mental / energético: pensamentos suicidas, medo, culpa.

A terapeuta buscou em cada avaliação da paciente, registrar os desvios encontrados nos três níveis e fortalecer o organismo/paciente, indicando os medicamentos que podiam agir nos diferentes sintomas apresentados com a dinamização adequada a cada um dos níveis.

Analisando a resposta da paciente verificou-se que ela foi respondendo positivamente aos estímulos dados pelo tratamento. Ela foi capaz de compreender que o sentimento de dor e tristeza (nível emocional) que sentiu / sente pelo ocorrido são justificáveis diante do que viveu e ela diz que consegue lidar melhor com esses sentimentos.

[1] A homeopatia trata os sintomas atuais que muitas vezes causam desconfortos físicos, mentais e emocionais. Pode acontecer, durante o tratamento, o ressurgimento de antigos sintomas que foram mal resolvidos ou suprimidos. Dessa forma, a exoneração não é uma piora, mas sim uma forma de trazer à tona os sintomas antigos que foram suprimidos, eliminando dessa forma a doença.

 

CONCLUSÃO

A paciente relata que consegue expressar mais afetividade em relação aos filhos e consegue emitir uma opinião mais clara em relação ao que sente pelo marido (nível emocional). Também foi observado que ela consegue lidar melhor com as situações de desencadeavam as crises de ansiedade, ou seja, os fatos

relacionados a morte (mental / energético). Um exemplo disso é quando ela consegue lidar com a morte do sogro (a qual ocorreu no meio do tratamento) sem passar por uma crise, após o tratamento ela não teve mais nenhuma crise.

Outro ponto que merece destaque é o fato dela não mais fazer o uso do medicamento alopático referido, conseguindo dormir melhor e controlar a ansiedade (emocional e energético). O sentimento de culpa (mental /energético) também foi “aliviado”.

Os sintomas que se apresentavam no físico foram amenizados ou desapareceram, como a dor de cabeça e os incômodos que precediam a menstruação.

Os dados apresentados confirmaram a importância e o auxílio prestado pela homeopatia no tratamento de pacientes que sofreram abuso sexual.

Vale se ressaltar a disponibilidade da paciente em obter a cura. Sua abertura e compromisso com o tratamento, esses são pontos cruciais que devem ser levados em consideração. Também vale destacar a importância do método TRI UNA pois além do uso da homeopatia a terapeuta contou com outros suportes no tratamento, como a psicoterapia individual e em grupo, o uso do Floral e o Reiki, além da fitoterapia com o chá de folha de maracujá.

A homeopatia ao levar em consideração o/a paciente, atuando nos diferentes níveis, é capaz de possibilitar os estímulos necessários à cura e/ou reequilíbrio proporcionando o reestabelecimento da sua energia vital. Dessa forma, aqueles que dela fazem uso conseguem se reequilibrar e seguir o fluxo natural de todo ser vivo que é o pulso da vida e não o da morte.

 

Revisão e Edição : Viviane Cristina de Paula

Referência:

Adaptado de: SOUZA, A. L. S. O Uso da Homeopatia em Casos de Abuso Sexual – Estudo De Caso. Trabalho de Conclusão do Curso apresentado ao Curso de Homeopatia Popular – Universidade Federal de Viçosa – Turma 3 – Diamantina / MG. (2018).

Vithoulkas, George. Homeopatia: Ciência e Cura. Editora Cultrix. São Paulo. 1980.

Casali, V.W, et. al. Acologia de Altas Diluições. Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa-UFV/MG

Site consultado:

O raio X do estupro no Brasil em 15 gráficos. Disponível em: https://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1312588.1464999452!/index.html. Acessado em: 29/01/2018.

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